"Vai-se perceber porque as eleições foram agora"

Luís Filipe Vieira.  Há quase sete anos que preside à direcção do Sport Lisboa e Benfica. Na semana passada, em eleições antecipadas, foi reeleito com um resultado esmagador: quase 92% dos benfiquistas votaram nele, naquele que foi um dos actos eleitorais mais participados e polémicos de sempre. Na primeira entrevista depois de reeleito, Luís Filipe Vieira é o convidado da TSF e do 'Diário de Notícias'<br />
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O que é que o Benfica ganhou com as eleições antecipadas?

Se me põe o problema do que é que ganhou…

Porque é que não podiam ser em Outubro? O que é que o Benfica ganhou com isto?

Aí não havia outra hipótese. Quando nos deparámos com uma situação concreta, começou em Fevereiro, mais ou menos, e face àquilo que estávamos a fazer dentro do próprio Sport Lisboa e Benfica e das negociações com algumas parcerias que temos, e que vamos formalizar brevemente, era bastante complicado. Começaram a pôr em causa até o que se passava dentro do Benfica, para haver tanta contestação. Penso que aquilo que era importante para o Benfica, e não contrariamente ao que as pessoas possam dizer (e que disseram) - que eu tinha uma estratégia pessoal. Pelo contrário, foi uma estratégia do Sport Lisboa e Benfica, empresarial, mais nada do que isso, o que estava em causa era isso mesmo. E como entendo que o Benfica é dos sócios e não é de mais ninguém, a única palavra verdadeira que existe é dos sócios - e face a uma contestação tão grande -, o melhor que havia a fazer, e para não penalizar o Benfica, era levar o Benfica a votos e os sócios decidirem, porque são os últimos que poderão ter a sua própria palavra, porque o clube é deles - ao fim e ao cabo é para eles que nós trabalhamos e são eles que têm de decidir. Infelizmente para o próprio Benfica, para quem tanto falava em projectos, nomeadamente duas possíveis candidaturas, falavam tanto de tantos projectos que tinham para o Benfica, foi só uma, não me pergunte porque é que a outra não foi a eleições, mas penso que pelo voto - que é a única parte soberana que pode existir desta instituição, são os sócios -, a partir daí eles disseram quem queriam…

Mas foi o presidente da Assembleia Geral do Benfica, Manuel Vilarinho, que assumiu que havia nesta antecipação das eleições uma estratégia pessoal sua.

Se ler a acta do Benfica, do plenário de órgãos sociais, irá ver que não houve nenhuma estratégia, nem nunca houve nenhuma estratégia pessoal dentro do Benfica. Porque penso que, se houve algum presidente do Benfica com a transparência que meto nas coisas e a participação em que envolvo toda a gente… por isso, melhor do que ninguém, os próprios profissionais do Benfica e aquelas pessoas mais chegadas a mim sabem que não tenho um projecto pessoal para o Benfica, pelo contrário.

Mas se as eleições fossem em Outubro, tudo estaria bem no Benfica à mesma?

Brevemente irá começar a ver porque é que não poderiam ser em Outubro.

Não quer desfazer esse mistério aqui?

Não, não tenho que desfazer nenhum mistério. Penso que o grande mistério foram os sócios do Benfica que responderam, e da maneira que corresponderam. Porque o que estava em causa - e penso que as pessoas que estiverem minimamente atentas hão-de perceber - já não eram só eleições, era uma marca chamada Benfica. Por muito que as pessoas agora digam o contrário, por aquilo que eu sei do que se estava a passar, posso dizer, o que estava em causa era a marca do Benfica.

Quer explicitar isso um pouco melhor?

Não vou explicitar, que as pessoas lentamente estão-se a aperceber. E não é por qualquer coisa que os sócios do Benfica, maciçamente, foram votar, contrariamente ao que as pessoas também dizem. Penso que fui, nesta votação, o presidente mais votado pelos sócios, foi esta nossa candidatura.

Está a tentar dizer-nos que havia uma estratégia para tomar conta do Benfica?

Penso que o vosso próprio jornal também escreveu, não vale a pena estarmos a esconder o que se estava a passar, mas acho que foi demasiado evidente.

Mas quem estava por trás dessa estratégia?

Não me compete estar a dizer-lhe, as pessoas tiveram cara, tiveram rosto, foram ao banco…

Sabia que José Eduardo Moniz foi ao banco?...

… Desculpe, foram ao banco, tiveram outros contactos fora do País, por isso… o tempo vai-nos dar razão. Costumo dizer que o tempo é a melhor resposta que podemos dar às pessoas.

Há quanto tempo sabia que José Eduardo Moniz podia ser candidato à liderança do Benfica?

Não lhe vou responder a essa pergunta. O que lhe posso responder hoje é que sou presidente do Sport Lisboa e Benfica, presidente de todos os benfiquistas, e o senhor José Eduardo Moniz é um sócio do Sport Lisboa e Benfica, e daquilo que ouvi dele é que espero… as portas estão abertas, toda a gente sabe que tenho as minhas portas abertas, o meu telefone está aberto, para quem tem tantas ideias, para quem disse que o Benfica estava mal, agora vamos aguardar serenamente por essas boas ideias também.

Temeu que José Eduardo Moniz pudesse avançar? Achava que teria tido mais luta na disputa pela liderança do Benfica? O resultado é esmagador nestas eleições.

Quem me conhece sabe que não tenho medo nem temo, tanto na minha vida privada como no caso concreto da… a minha vida privada, não, a minha vida empresarial, e concretamente também no Sport Lisboa e Benfica. Quem trabalha diariamente comigo sabe a confiança que eu tenho e aquilo que sinto que sou capaz de fazer. Costumo dizer que arrasto é toda a gente atrás de mim. Por isso, medo... nunca tive medo. E estive tão à vontade que imediatamente dissemos aos sócios do Benfica: "Estamos aqui, temos o projecto que temos, queremos dar-lhe continuidade, ou escolham opções que também vão ter em cima da mesa." Naquela altura até pensávamos que iam ser muitas mais, infelizmente não apareceram, os sócios responderam. Não há mais nada do que isto, nem tenho outras pretensões a mais nada, o que me interessa é defender os interesses do Sport Lisboa e Benfica, e penso que, desde o primeiro dia em que entrei neste clube, os tenho defendido, e bem. Mais uma vez, também penso que os defendi muitíssimo bem.

Está preocupado com a agitação judicial à volta destas eleições do Benfica, ou, como diz Manuel Vilarinho, está-se nas tintas para as providências cautelares?

Em termos jurídicos, fiz sempre questão, nesta situação das eleições do Benfica, de estar completamente afastado. Como deve calcular, o Benfica cumpriu estatutariamente tudo, ou seja, esta candidatura cumpriu escrupulosamente todos os estatutos do Sport Lisboa e Benfica, e o tempo está a dar-nos razão. Pelos artigos que estão a sair, todos os pareceres que estão a sair estão a dar-nos razão. Agora, como deve calcular, nunca me quis envolver numa situação dessas, era o senhor Manuel Vilarinho, o presidente da Assembleia Geral, que tinha de tomar essa decisão, e, na minha óptica, tomou-a muitíssimo bem. Cumpriu escrupulosamente também os estatutos do Sport Lisboa e Benfica.

Nunca pensou, naquelas horas, naqueles dias, que as eleições podiam ser adiadas? Isso chegou a estar em cima da mesa?

Não. Nunca. Quem andou perto de mim sabe qual era o meu pensamento. A única coisa que lhe posso dizer é que senti alguma revolta por tanta crítica que não tinha o mínimo fundamento. Como deve calcular, isto é tudo muito bonito quando se fala de futebol e quando as pessoas dizem "vencer, vencer", como se diz por aí fora. Eu sei que se há alguém que, quando não ganha - como nós por vezes não ganhamos -, sofre mais, de certeza que eu sou um deles. Sofro bastante com as derrotas do Benfica. Agora, o tema importante numa situação destas é que o que estava em causa eram outras coisas.

Se houver uma impugnação das eleições, desiste definitivamente do Benfica, ou volta a ser candidato?

Não há impugnação, não há.

Não coloca sequer essa hipótese?

Não coloco essa hipótese. E os sócios responderam bem claro quem querem à frente do clube e o projecto que pretendem. Acho que o resultado diz tudo.

Este é o seu último mandato, ou o seu futuro no Benfica estará condicionado pelos resultados e pelo êxito desportivo?

Não, o meu futuro… a obra está cá. Se me põe, claramente, em termos de objectivos e resultados desportivos, darei sempre o melhor que sei em prol do Sport Lisboa e Benfica. Isso é a única coisa que lhe posso garantir.

Mas o melhor não tem chegado para muitas vitórias ao nível da história do Benfica.

Pois, normalmente não consigo coabitar muito numa situação, quando vocês falam das vitórias, acho que o Benfica e nomeadamente no meu mandato, nós temos bastantes títulos. Não serão aqueles que desejaríamos, logicamente. Se nós pudéssemos ganhar sempre, era aquilo que desejávamos mais. Infelizmente, não tem sido possível, mas acho que já conquistámos bastantes títulos. Agora, não me ponha o problema de garantir aos benfiquistas que vamos ser campeões, nós partimos sempre para ser campeões…

Mas está satisfeito com a quantidade que têm ganho?

Deixe-me só dizer, eu não consigo, não compro árbitros, não entro por aí..

Mas acha que em Portugal alguém compra árbitros? Ainda compra, é melhor perguntar assim. Acha?

(risos) Vocês também devem saber um pouco disso, mas eu não quero entrar por aí. A única coisa que quero garantir aos benfiquistas é que temos um projecto desportivo. Aliás, depois de tudo o que fizemos dentro do Benfica - nomeadamente em termos de infra-estruturas -, acho que estão criadas as condições para consolidarmos um projecto desportivo, que passa pelo futebol, pelas modalidades, pelo projecto olímpico. E nisso garanto-lhe que o Benfica irá lutar, ter equipas - irá ter em todas as áreas que tiver equipas bastante preparadas para competir até à conquista do título.

É presidente do mais popular clube português, dizem as sondagens que se fazem sobre os adeptos dos clubes em Portugal. A sua opinião aqui neste caso é importante: acha que o futebol português continua a não ser um meio transparente? E onde impera a verdade desportiva?

Veja o 45 Minutos do Benfica TV, e depois de ver, aquilo são factos reais, aquilo existiu, não vamos esconder um facto que existiu…

A questão é se acha que continua a ser da mesma maneira, que essa realidade reflectida nesse programa da Benfica TV continua a existir?

Não vou comentar muito mais do que isso. A única coisa que lhe posso garantir é que as equipas do Benfica sabem que dentro do campo têm que lutar até ao máximo. Falar de arbitragem, para nós, vai ser praticamente banido - não vamos falar. Temos que lutar muitíssimo mais e pensar sempre que vamos ter surpresas. E temos que lutar contra essas surpresas. Não vou adiantar muito mais do que isso porque não vale a pena, porque já batemos tanto, tanto… e não quero entrar por aí mais nenhuma vez.

Está satisfeito com o número de títulos que ganhou no Benfica nestes seus primeiros anos?

Nunca estou satisfeito com a minha vida, com os objectivos que traço. Nunca estou satisfeito, quero sempre mais e mais. E irei provar que depois de tudo o que se fez - eu estou há cerca de sete, oito anos no Benfica -, e acho que os resultados têm aparecido tanto no projecto todo que delineámos para o Benfica... tudo o que se está a fazer hoje no Benfica e tudo o que foi feito no Benfica, garanto-lhe, poucos clubes... para não dizer que não há clube algum, em termos da Europa, que fizesse tanto em tão pouco tempo. Isso posso-lhe garantir. Um clube que vem do zero. É que vocês, normalmente, batem teclas que custa às vezes ouvi-las. Ainda não ouvi uma tecla dizer "como é possível partir para um projecto destes, com as pedras da calçada completamente hipotecadas", sem termos nada, sem crédito, sem credibilidade alguma em lado algum, em termos de capital humano não existir nada, e chegar onde chegámos e onde estamos? Dá vontade às vezes de perguntar às pessoas o que querem mais.

Mas tem consciência de que os exigentes adeptos do Benfica precisam, querem muito uma vitória no campeonato nacional?

Já tiveram uma, vão ter muitas mais.

Sim, é verdade. Mas, entretanto, há quatro anos que não ganham.

Pois, vão ter muitas mais. Vou-lhe dar um dado que se calhar é importante, as pessoas às vezes admiram-se muito: nós, quando começámos em 2000, e depois começámos com uma SAD... se vocês estiverem atentos aos passivos de cada SAD, irão ver o trabalho notável que o Benfica fez até agora. Porque às vezes andamos todos distraídos, fala-se daquilo que é conveniente, daquilo que é bom dizer às pessoas. E a coisa mais fácil de dizer é que o Benfica não ganhou. Mas para criar condições para um clube como o Benfica ganhar é muito importante todo o trabalho que temos vindo a fazer. E quando nós olhamos para os passivos das SAD - e estamos a falar do último trimestre -, das SAD do Benfica, do FC Porto e do Sporting, em alguma coisa estamos então a contradizer-nos. Estou-lhe a garantir que nós, em 2000, não tínhamos uma pedra para passear em lado nenhum. Tudo o que pisávamos não era nosso.

Hoje tem crédito?

Não é só crédito, a obra está lá feita! Mais, em termos humanos, em termos de capital humano, que é das coisas mais ricas que este clube começa a ter, hoje de certeza que todos os nossos profissionais são elogiados. Hoje, olha para a nossa equipa de futebol e de certeza que vê uma equipa nova, e uma equipa que começa a olhar para ela e a dizer "há aqui alguma coisa que está a fazer-se". Hoje, olha para a nossa formação e vê que, nomeadamente, nas selecções nacionais, o Benfica, se calhar, é um dos clubes que têm mais jogadores nas selecções nacionais. Olha para as modalidades e vê as equipas do Benfica supercompetitivas, tem um projecto olímpico como nunca teve. Mais do que tudo isso, diz que o Benfica cumpre escrupulosamente o pagamento aos seus atletas.

Portanto, já só falta ganhar?

Disse tudo, só falta ganhar. Essa é a grande realidade. Mas não é ganhar uma vez! É ganhar consistentemente…

É um projecto para retirar a hegemonia que o FC Porto tem tido no futebol profissional?

Não me fale de outros clubes. Falo do Sport Lisboa e Benfica. O que me interessa é seguir, nunca olho para o lado, olho em frente. E em frente é olhar para o Benfica, o trabalho que estou a fazer é em prol do Benfica, nunca falando de outros clubes. Acho que com este tipo de mentalidade, com este tipo de projecto que nós encetámos e com tudo o que temos estado a fazer, a inovação que nós criamos no dia-a-dia dentro deste clube, se calhar temos sido bastante positivos, para não dizer - até para a principal concorrência nossa - que temos aberto caminhos que se calhar não era possível eles abrirem.

Qual foi a decisão mais complicada que tomou nestes anos todos que leva de presidente do Benfica? Alguma em especial de que se lembre?

Quem tem de decidir, normalmente, é sempre difícil, mas quando se acredita naquilo que se quer fazer, por exemplo…

Mas foi, por exemplo, avançar para a construção do estádio, ainda não era presidente, foi trocar algum treinador?

Não, treinador, não. Não são essas as grandes decisões. Acho que a construção do estádio é uma decisão muito profunda, mas foi também convicta, que era para indicar aos sócios do Benfica que era por ali que nós… principalmente, havia algo que era importante, que era a auto-estima dos benfiquistas. Os benfiquistas sentirem, numa altura em que estavam de rastos, que estavam iguais e que voltavam novamente ao seu passado recente, que era definir a sua própria pujança, e acho que aí nós conseguimos que o estádio… foi uma decisão muito complicada, mas era aquela a melhor para o Benfica. Foi, se calhar, a mais profunda de pensamento. Há outras que nós tomamos, outras que são rápidas a decidir, por vezes erramos, como deve calcular, agora, esta do estádio tinha de ser muito bem ponderada, com muita profundidade, e sabendo nós que íamos ter um project finance pela frente, como conseguíamos garantir determinado tipo de receitas. Ou seja, isso levava, antes de essa obra ser iniciada, a ter projecções para a frente, e projecções bem pensadas, do que éramos capazes. Mas isso aí, como deve calcular, não foi só a minha cabeça a pensar, tive outras pessoas comigo, e pensaram elas todas também. Mas, principalmente, se não fosse o Mário Dias a ter os projectos prontos, não havia estádio para avançar, ou seja, enquanto foram boicotando o Mário Dias, o Mário Dias não cedeu e foi sempre fazendo projectos. Porque naquele dia, se nós tomamos a decisão para fazer e não houvesse projecto, ficávamos por ali. Felizmente, o Mário Dias sempre acreditou que era possível lá chegar, e felizmente chegámos.

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